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 Histórias de Pesca

Crónica nº  2

 

   

                                                                                              por Papo Seco

O filho da p*** existe e encontra-se em todos os sítios e em todos os ambientes. Do pouco que se sabe acerca dele, de como a sua roupa e a sua figura não bastam para o definir, restam alguns traços que o caracterizam - os seus gostos e lugares preferidos, as suas grandes especializações, o seu sistema de entreajuda, perguntas que faz, a sua sempre escondida vida particular, a sua casa lar como lugar excelso, os seus modos de recreio e diversão, os seus tiques e aspectos anedóticos, os seus temores e receios, enfim, de como é, acima de tudo, um filho da p***. A grande dúvida que ainda existe em relação ao filho da p*** é se ele já nasce filho da p*** ou se a vida é que o faz...

Pois, o filho da p*** também pesca. Encontramo-lo por aí, sózinho ou em grupos de que apenas faz parte por pouco tempo, com a cana na mão. Digo que apenas faz parte por pouco tempo porque é breve o espaço temporal que o grupo leva a descobrir que por lá paira um filho da p*** e, tal como a uma purulenta borbulha, procede à sua excisão, normalmente de forma gradual e pouco notada, até que o próprio filho da p*** já não tenha coragem de voltar, pois sabe que já o toparam...

O filho da p*** nunca se define à primeira vista - esta é, aliás, uma das suas principais características. À primeira vista, o filho da p*** faz tudo para mostrar a disponibilidade que acha própria, e ocultar a própria indisponibilidade. À primeira vista, o filho da p*** diz quase sempre que está bem, que "se vai ver", o filho da p*** é quase sempre assim, sim senhor. É só depois, às vezes muito depois, que o filho da p***, por vocação superior e para constar, diz que "não, não senhor", e mostra que não está na disposição: nem de viver nem de deixar viver. Por isso, ele, o filho da p***, ocupa-se e preocupa-se sobretudo com os outros, e uma das coisas que mais o ocupa e preocupa é a despreocupação dos outros, e esse é a segunda das suas principais características. Até se pode dizer que nada preocupa tanto o filho da p*** como a despreocupação dos outros, que nada o incomoda tanto, nada o perturba de tal modo como a despreocupação dos outros. Ele, o filho da p***, tem por máxima preocupação construir toda a espécie de mais valias, e assim ocupa a vida com essa preocupação, isto é, ocupa a vida ocupando-se com o modo de conseguir sempre o que mais valia, sacrificando-se para conseguir sempre o que mais vale...

O filho da p*** não gosta de viver, mas gosta de reviver, gosta mais de reviver que de viver, e assim ocupa grande parte do seu tempo. Deste modo se entende que seja sempre imensa a saudade que ele, filho da p***, tem do passado, imenso o seu desejo de ambição de regressar (se possível) ao estado embrional, esse estado em que ia para todos os lugares sem chegar a sair do mesmo lugar.

Na pesca, o filho da p*** quer sempre pescar mais que os outros, seja lá como for. Se alguém apanha algum peixe, o filho da p*** logo a ele se encosta para pescar no mesmo lugar e vai apertando, sem quaisquer contemplações, até que o outro se afaste. Se estiver longe irá lançar exactamente para a frente do outro, de modo a incomodá-lo...Quando não apanha nada é porque é um tipo com azar, porque os outros ficaram nos melhores locais e tinham melhor isco - para o filho da p*** cada pescaria é um concurso - e se fica mal "classificado" não consegue esconder o mau humor e a filha da putice que o envenena. é nesta altura que deixa de se controlar e não consegue evitar o focinho coberto de ódio contra tudo e todos.

Para o filho da p*** a captura de espécies que não irá aproveitar para a mesa é a forma de vingança contra o mundo e contra os outros - e os pontapés, pisadelas e outras formas de crueldade contra o desgraçado do peixe surgem, incontroláveis, proporcionando um sorriso escondido e um acalmar imediato, mas por pouco tempo, dos recalcamentos e do ódio latente nas suas entranhas...

Lançar lixo à água ou deixá-lo nos pesqueiro é um dos gozos supremos do filho da p*** na pesca - saber que quem vier a seguir vai encontrar toda a merda que lá deixou, e que contribuíu com mais algum lixo para a poluição das águas fá-lo sentir-se importante - e o prazer de saber que incomodará os outros leva-o a um êxtase indescritível, já que ele vive basicamente para lixar a vida aos outros.

O filho da p*** utiliza material de pesca barato - porquê que iria dar uma pipa de massa por uma boa cana ou carreto? Porquê gastar dinheiro nestas merdas, encher o cú a esses chulos das casas de pesca? Nem pensar!!! Ele é um gajo com azar e o dinheiro faz-lhe muita falta...

A técnica do filho da p*** muda de época para época e de lugar para lugar. A felicidade e o gosto pela vida que os outros manifestam é incompreensível para si - porque é que os outros não têm tanto azar como ele? Que mal é que ele, filho da p***, fez, para ter tanto azar????

Há filhos da p*** vocacionados para fazer e filhos da p*** vocacionados para não deixar fazer, e estes são os dois tipos universais e eternos do filho da p***. Há, naturalmente, subtipos e especializações funcionais com funções especiais: modos de fazer, ou de fingir não fazer e deixar fazer; no entanto, quer os dois tipos, quer os vários subtipos de filhos da p***, todos eles são primariamente e acima de tudo filhos da p*** e disso estão todos bem conscientes. É por isso que nem sempre podemos e devemos delimitar rigidamente estes tipos, dado que eles são flexíveis e se entrecruzam e interpenetram.

Apesar de tudo, sim, apesar de tudo o filho da p*** está relativamente contente consigo. Está preocupado com a vida dos outros e descontente com a vida em geral, mas relativamente contente consigo. O filho da p*** acha sempre que tirou o melhor partido do mau partido que foi ter nascido, e do péssimo partido que é viver. O filho da p*** consola-se muito com o infortúnio dos outros, com a crise dos outros, com a doença dos outros. Os outros também estão em crise, os outros não passam melhor, os outros não fizeram melhor, os outros também perderam, "lixaram-se", "quilharam-se", diz o filho da p*** exultante. Nada atrai mais o filho da p***, nada o consola tanto como o relato da doença ou da crise que assola os outros.

Enfim, o filho da p*** só se sente feliz com a infelicidade dos outros. Mas morre de muitas maneiras - geralmente da doença que o envenenou toda a vida e que, como ponto máximo da sua carreira, lhe proporciona um final com muito brio, mas atroz sofrimento. O filho da p*** morre sózinho...
 

Um abraço para todos do PAPO SECO

 

 

 

 

 

 
 

 

 

 

 

 

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