|
Por vezes ouvimos um pescador dizer: “o Windguru previa ondas de 5 metros,
mas nem 2 têm”. Daí o pescador conclui que o site consultado errou, e que
não terá qualidade nas previsões. As coisas não são bem assim. O Windguru
tem, naturalmente, algumas falhas, que podem ser ultrapassadas
se soubermos interpretar correctamente as suas previsões. É exactamente isso
que vou procurar transmitir neste artigo, com base na minha experiência de
alguns anos de acompanhamento e observação directa do site, e do estado do
mar em diferentes zonas do país, isto para além de alguma pesquisa
científica sobre ondas e a respectiva propagação. Antes de se passar a uma
análise da página do Windguru, é essencial compreender os fenómenos naturais
presentes. 1. A
geração de ondas no oceano e sua propagação
1.1- Porque há ondas?
É a primeira pergunta que se coloca.
As ondas do mar são geradas por depressões cavadas no meio do oceano, que
geram ventos muito fortes (tempestades), que “perturbam” a superfície do
mar. É similar a uma pessoa atirar uma pedra a um lago (em que a pedra
representa a tempestade e o lago o oceano). Verifica-se que as ondas se
propagam até atingir a margem do lago (que representa a costa).
Naturalmente, quanto maior for a “pedra” (tempestade), maiores as ondas,
assim como quanto mais longe da margem a pedra bater na água, mais fracas as
ondas chegarão à margem. Só há uma ligeira diferença nesta analogia: no
oceano, uma perturbação não gera ondas que se propaguem em todas as
direcções de igual modo como uma pedra num lago. Normalmente, no Oceano
Atlântico, as depressões propagam-se no sentido Oeste (W)- Este (E). Assim,
o cenário mais comum é a formação de depressões no Atlântico Norte,
que se propagam depois para E/SE/NE, atingindo a Costa Europeia.

1.2 - Como se comportam as ondas ao chegar
a uma costa? As ondas, ao atingirem a costa, vão modelar-se à mesma.
Estas serão maiores em locais da costa onde a sua direcção for perpendicular
à linha de costa e onde, para lá chegarem, não encontram nenhum obstáculo
físico (ilhas, cabos, etc). As ondas têm capacidade para contornar esses
obstáculos, mas, quando o fazem, perdem energia, diminuindo a altura. Isso
dependerá muito da direcção da ondulação, logo esse será um parâmetro muito
importante quando se consulta o Windguru, mas que a maior parte das pessoas
despreza. De seguida, explicarei o porquê, numa análise às diversas formas
da nossa costa.
2. A
ondulação na costa
portuguesa
2.1 - Costa Norte e Centro (até
Cascais)

Esta parte da costa é orientada para Oeste/Noroeste,
pelo que recebe grande parte das ondulações ao longo do ano, sem que
estas tenham de contornar qualquer obstáculo físico.
Note-se, no entanto, um
encurvamento da costa na zona do Porto, pelo que se a ondulação vier de
noroeste é provável que as ondas sejam um pouco menores nesta zona, devido
ao facto da linha de costa já não ser tão perpendicular em relação à
direcção das ondas.
2.2 - Linha do Estoril
A
linha do Estoril já se encontra abrigada das ondulações de Noroeste. O Cabo
Raso é um obstáculo físico muito importante, e as ondas, para atingirem esta
zona, terão de contornar esse obstáculo. Pode concluir-se que quanto menos a
norte for a sua direcção maior será a probabilidade de haver ondas.
Obviamente, uma ondulação de Sul ou Sudoeste será a que gerará maiores ondas
nesta zona.
Poderá, porém, haver ondas grandes, caso a direcção
destas seja Oeste ou Noroeste e a ondulação tiver energia suficiente para
ultrapassar o Cabo Raso. Por exemplo, uma ondulação de Noroeste com 5 metros
terá esse efeito, pois conseguirá contornar o Cabo.
2.3 - Trafaria - Cabo Espichel
Esta zona é bem mais exposta às ondulações que a linha do Estoril, mas ainda
está algo “protegida” pelo Cabo Raso das ondas de noroeste. No entanto, uma
ondulação normal (1,5/2 metros) de noroeste, consegue atingir esta zona da
costa, embora em menor escala que, por exemplo, as praias de Sintra. De
resto, verifica-se que uma ondulação de Oeste entra quase a 100% neste
pedaço de costa, podendo haver ondas também numa orientação de sudoeste.
2.4 - Cabo Espichel-Setúbal
Esta é a zona da costa portuguesa onde ao longo do ano se verificam menos de
dias ondas significativas. Isso deve-se ao facto de ser totalmente abrigada
das ondulações de noroeste, pois estas teriam de contornar o Cabo Espichel,
que representa um obstáculo físico de muito maior envergadura do que, por
exemplo, o Cabo Raso representa para a linha do Estoril. Nem ondulações
nesta direcção muito fortes conseguem chegar em condições, por exemplo, a
Sesimbra.
Naturalmente, só haverá ondas nesta costa quando a direcção for de sul ou
sudoeste, ou eventualmente um swell de oeste muito forte que tenha energia
para contornar o Cabo Espichel.
2.5 - Setúbal-Sines
Toda esta costa é ainda bastante influenciável pelos dois Cabos já
referidos, relativamente às normais ondulações de Noroeste. No entanto, é
certo que quanto mais para sul, menor será essa influência. Uma ondulação de
oeste ou sudoeste já seria bastante mais produtiva no que respeita a ondas
nesta zona. Note-se que grande parte dos pescadores da Costa Vicentina,
quando existe uma ondulação forte de Noroeste, deslocam-se para esta zona da
costa mais abrigada.
2.6 - Sines- Sagres (Costa Vicentina)
Alguns podem perguntar-se porquê que tenho mantido as imagens do mapa desde
Sintra. A razão é a importância de se poder verificar a posição dos
obstáculos físicos para o Sul. E nesta costa verificamos que, a partir de
Sines, a influência dos dois Cabos começa a diminuir nos Swells de Noroeste,
sendo essa influência nula a partir da zona de Vila Nova de Mil Fontes.
Apenas nas ondulações exactamente direccionadas de Norte (algo raras), os dois
Cabos exercerm alguma influência sobre esta parte da costa. Assim, a Costa
Vicentina, é, na sua maior parte, totalmente aberta às
ondulações.
Verifica-se também um encurvamento na direcção do mar a partir da zona de
Odeceixe, que permite que as ondulações de noroeste atinjam a parcela da
costa Odeceixe-Sagres com uma direcção mais perpendicular à costa,
resultando, portanto, ondas ligeiramente maiores que acima desta zona.
2.7 - Algarve
Zona
protegida das Ondulações de Noroeste pelo Cabo S. Vicente. Nesta parte da
costa é normal aparecer o Suão (vento quente que sopra do sul), que origina
ondas de Sueste provenientes do Estreito de Gibraltar. Também pode ser
atingida por ondulações de Sudoeste ou Oeste (ondulação mais fraca).
continuação (2)
|